A Carta Que Nunca Deveria Ter Sido Lida

Ele havia aprendido, com o tempo, a conviver com o silêncio.

Publicidade

Não aquele silêncio incômodo, pesado — mas o outro. O silêncio que se instala depois de anos de rotina. A casa conhecia seus passos. O relógio marcava as horas sem pressa. As noites chegavam sem promessas.

Até aquela carta.

Ela estava sobre a pequena mesa perto da porta. Sem selo. Sem remetente. Apenas o nome dele, escrito à mão, com uma caligrafia cuidadosa, quase contida, como se quem escreveu tivesse pensado duas vezes antes de cada letra.

Ele ficou parado por alguns segundos. Casaco ainda vestido. As chaves ainda na mão.

Pensou em deixá-la ali.

Algumas coisas, ele sabia, mudam completamente o rumo de um dia. Às vezes, de uma vida inteira.

A curiosidade venceu.

O papel era mais espesso do que o normal, levemente amarelado. Tinha um cheiro suave — não era perfume. Era algo mais íntimo. Algo que lembrava livros antigos, tardes longas e conversas que nunca terminavam de verdade.

As primeiras palavras fizeram seu peito apertar.

“Não sei se você vai se lembrar de mim.
Mas eu nunca me esqueci de você.”

Ele respirou fundo.

Ela não assinou o nome. Não precisava.

A memória não pede permissão para voltar.

Ele se lembrou do sorriso dela antes mesmo do rosto. Um sorriso discreto, controlado, como se sempre houvesse algo que ela preferia guardar. Depois vieram os olhos. Atentos. Presentes. Olhos que pareciam ouvir até o que não era dito.

Eles nunca haviam ultrapassado certos limites.

Talvez esse tivesse sido o erro.

Ou talvez fosse exatamente isso que tornava tudo tão intenso.

Ele se sentou devagar, como se o corpo entendesse que aquele momento exigia calma.

A carta continuava.

“Existem encontros que ficam inacabados.
Às vezes, me pergunto se você também sente isso.”

Lá fora, a cidade seguia normalmente. Carros passavam. Pessoas voltavam para casa. Dentro daquele pequeno apartamento, o tempo parecia ter diminuído o ritmo.

Eles haviam trabalhado no mesmo prédio, anos atrás. Vidas diferentes. Compromissos diferentes. Conversas que começaram simples — café, livros, pequenas reclamações do dia — e, sem perceberem, ganharam outro peso.

Não era desejo explícito.

Era reconhecimento.

Ela enxergava nele algo que poucos viam. Não o papel que ele desempenhava no mundo, não a postura que aprendeu a adotar. Mas o homem por trás disso tudo.

E ele percebia nela pequenas rachaduras naquele autocontrole elegante. Especialmente quando os olhares demoravam um segundo a mais do que deveriam.

A carta mencionava detalhes impossíveis de serem esquecidos.

A sala de reuniões com a janela quebrada.
A chuva inesperada que os prendeu até mais tarde numa noite qualquer.
O silêncio desconfortável — e ao mesmo tempo intenso — que se formava quando ficavam sozinhos.

“Penso muitas vezes no que não aconteceu,” ela escreveu.
“Não por arrependimento… mas pela tensão que ficou.”

Um leve sorriso surgiu no rosto dele, sem que percebesse.

Aos cinquenta e poucos anos, o desejo já não tinha pressa. Não era impulsivo. Ele era feito de lembranças, de escolhas, de coisas que amadureceram com o tempo.

Virou a página.

“Não estou pedindo nada.
Só queria que você soubesse que algumas histórias não acabam.
Elas apenas esperam.”

O celular vibrou sobre a mesa.

Número desconhecido.

Você recebeu?

Ele ficou olhando para a tela por alguns segundos. Talvez minutos.

Pensou em tudo que havia construído. Na vida organizada. Nos dias previsíveis. Na tranquilidade cuidadosamente mantida.

Mas pensou também nisso:

Algumas portas nunca se fecham de verdade.
Elas apenas ficam em silêncio.
Esperando o momento certo.

Ele respondeu.

Sim.

A resposta veio quase imediatamente.

Você gostaria de continuar essa história?

Ele recostou-se na cadeira. A carta ainda aberta em sua mão.

A noite começava a cair do lado de fora. Lenta. Profunda.

E, pela primeira vez em muito tempo, ele não se apressou em acender a luz.

Continue lendo

Algumas histórias não terminam quando acreditamos que terminaram.
Elas apenas aguardam coragem.

👉 No próximo capítulo, um encontro muda tudo.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *