A Carta Que Nunca Deveria Ter Sido Lida – P3

Eles continuaram ali por alguns segundos a mais do que o necessário.

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Não era indecisão. Era consciência. Ambos sabiam que aquele instante, exatamente como estava, tinha peso. Qualquer passo seguinte mudaria o tom da história.

Ela foi a primeira a se mover.

— Quer subir? — perguntou, com naturalidade. Nenhuma pressão. Nenhuma promessa.

Ele respirou fundo antes de responder.

— Quero — disse. — Mas quero ir devagar.

Ela sorriu, compreendendo mais do que as palavras diziam.

O elevador subiu em silêncio. O leve som dos cabos, a luz suave, o reflexo deles no espelho metálico. Ele percebeu como seus próprios gestos estavam mais atentos, mais presentes. Cada detalhe parecia importar.

O apartamento era simples. Organizado. Iluminado apenas por uma luminária próxima à janela. Havia livros espalhados, uma poltrona confortável, uma manta dobrada com cuidado.

Ela deixou a bolsa sobre a mesa.

— Vinho? — perguntou.

— Talvez depois.

Ela assentiu.

Sentaram-se no sofá, mantendo uma pequena distância entre os corpos. Não por receio, mas por respeito ao ritmo que haviam estabelecido sem combinar.

— Eu pensei muito antes de te procurar — ela disse, olhando para as próprias mãos. — Não queria abrir algo que você tivesse conseguido fechar.

— Algumas coisas nunca se fecham — ele respondeu. — A gente só aprende a conviver com elas.

Ela levantou o olhar.

— E agora?

Ele pensou por alguns segundos.

— Agora eu quero entender o que isso é… hoje. Não o que foi antes.

Ela se aproximou um pouco mais. Não tocou. Apenas diminuiu o espaço.

— Eu também — disse.

O silêncio voltou a ocupar o ambiente. Mas não era vazio. Era denso. Vivo.

Ele percebeu detalhes que antes teriam passado despercebidos: a forma como ela respirava, a maneira como ajeitava o cabelo atrás da orelha, o cuidado com que escolhia as palavras — ou decidia não usá-las.

— Você mudou — ela comentou.

— Todos mudam — respondeu. — Mas nem todos ficam mais atentos.

Ela sorriu com isso.

— Gosto dessa versão sua.

Ele sustentou o olhar.

— Eu também estou começando a gostar.

Ela se levantou e foi até a janela. Observou a cidade por alguns segundos. As luzes distantes, os prédios silenciosos.

— Sabe o que mais me marcou naquela época? — perguntou, sem se virar.

— O quê?

— A sensação de que havia algo acontecendo… mesmo sem acontecer.

Ele se levantou e ficou a poucos passos dela.

— Às vezes, isso é o que mais fica — disse.

Ela virou-se devagar. Os rostos agora estavam próximos. Próximos o suficiente para perceberem o calor um do outro. Próximos o suficiente para que qualquer movimento fosse uma escolha clara.

Ela ergueu a mão e tocou o rosto dele, com delicadeza. Um gesto simples. Intencional.

Ele fechou os olhos por um breve instante.

Não havia urgência. Não havia pressa. Apenas a certeza de que aquele toque dizia mais do que qualquer palavra dita naquela noite.

— Se a gente continuar — ela falou em voz baixa — não tem volta.

Ele abriu os olhos.

— Algumas coisas não precisam voltar. Precisam começar do jeito certo.

Ela manteve a mão ali por mais um instante. Depois sorriu, um sorriso tranquilo, seguro.

— Então vamos com calma — disse. — Mas vamos.

Eles se afastaram um pouco, sentaram novamente. O vinho foi servido. Conversaram mais. Riram baixo. Compartilharam silêncios longos.

A noite avançava sem cobranças.

E ele percebeu algo simples, mas profundo: não era sobre desejo imediato. Era sobre presença. Sobre escolha. Sobre estar ali por inteiro.

Quando ele se levantou para ir embora, já era tarde.

Na porta, ela se aproximou mais uma vez.

— Obrigada por não apressar — disse.

— Obrigado por esperar — respondeu.

Eles se olharam por alguns segundos. Um entendimento silencioso se formou ali.

Aquilo não terminava naquela noite.

Apenas começava.

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Nem toda intimidade acontece de uma vez.
Algumas se constroem.

👉 No próximo capítulo, a distância reacende o desejo — e o vínculo se aprofunda.

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