A Carta Que Nunca Deveria Ter Sido Lida – P2

Ele passou a noite acordado.

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Não por ansiedade evidente, mas por algo mais sutil. Uma presença invisível ocupava o espaço do quarto. A carta repousava sobre a mesa de cabeceira, dobrada com cuidado, como se fosse frágil demais para ser esquecida ali.

Não houve mais mensagens.

Só isso já dizia muito.

Na manhã seguinte, ele seguiu sua rotina quase por instinto. Café forte. Janela aberta. O mesmo noticiário de sempre, repetindo fatos que já não despertavam reação alguma. Mas algo estava diferente.

Ele estava atento.

O celular vibrou no início da tarde.

Hoje.
19h.
O mesmo lugar.

Ele soube exatamente onde.

O pequeno café no centro da cidade ainda existia, embora tivesse mudado de nome. Mesas de madeira escura, iluminação baixa, música discreta — um lugar feito para conversas que não querem ser ouvidas.

Ele chegou alguns minutos antes. Escolheu uma mesa no fundo, de costas para a parede. Velho hábito. Observou o ambiente sem pressa, como quem tenta se lembrar de como era esperar por alguém.

Quando ela entrou, o tempo fez algo estranho.

Não parou. Mas desacelerou.

Ela não mudou tanto quanto ele imaginava. Talvez porque certas presenças não envelheçam da mesma forma que os corpos. O cabelo estava um pouco mais curto. O rosto, mais sereno. O olhar… o mesmo.

Ela o viu imediatamente.

O sorriso surgiu com cuidado, quase tímido. Não havia pressa. Não havia teatro.

Ela se aproximou.

— Você veio — disse, em voz baixa.

— Vim.

Por alguns segundos, nenhum dos dois falou mais nada. Não era constrangimento. Era reconhecimento. Como se o silêncio fosse parte da conversa.

Ela se sentou à frente dele. Cruzou as mãos sobre a mesa.

— Eu não sabia se você responderia — confessou.

— Eu também não sabia se deveria — ele respondeu com honestidade.

Ela sorriu de leve.

— Algumas dúvidas valem o risco.

O garçom apareceu. Eles pediram vinho. O mesmo de antes. Nenhum dos dois comentou isso.

— Você pensou em nós? — ela perguntou, depois de um tempo.

Ele pensou antes de responder.

— Pensei no que ficou suspenso — disse. — No que nunca teve um nome.

Ela desviou o olhar por um instante. Depois voltou.

— Às vezes, o que não acontece pesa mais do que o que acontece.

Ele concordou em silêncio.

As conversas fluíram com naturalidade surpreendente. Não falaram do passado imediatamente. Falaram do presente. Dos dias que se repetem. Da solidão que não se explica facilmente. Das pequenas escolhas que moldam uma vida inteira.

Em determinado momento, ela tocou a mão dele.

Não foi um gesto ousado. Foi breve. Quase casual.

Mas suficiente.

Ele sentiu algo que não sentia há muito tempo: atenção plena. O mundo ao redor desapareceu, não por excitação, mas por foco. Ela estava ali. Inteira.

— Eu não escrevi esperando algo físico — ela disse, como se pudesse ler seus pensamentos. — Escrevi porque precisava saber se ainda existia algo entre nós.

Ele a encarou com calma.

— Existe — respondeu. — Mas é diferente agora.

— Melhor ou pior?

Ele pensou.

— Mais consciente.

Ela assentiu.

O vinho terminou. A noite avançou. O café começou a esvaziar.

— Quer caminhar um pouco? — ela perguntou.

Ele aceitou.

Do lado de fora, a cidade estava mais quieta. As luzes refletiam no asfalto. Eles andaram lado a lado, sem se tocar, mas próximos o suficiente para sentirem o calor um do outro.

Em frente a um prédio antigo, ela parou.

— Eu moro aqui — disse.

Ele sabia o que aquela pausa significava.

Não era um convite direto. Era uma pergunta silenciosa.

Ele a olhou com atenção. Não havia pressa. Não havia cobrança.

— Eu não quero estragar isso — ele disse.

Ela se aproximou um pouco mais.

— Algumas coisas não se estragam quando são feitas no tempo certo.

Eles ficaram ali, próximos, respirando o mesmo ar.

Ele percebeu que, pela primeira vez em muitos anos, não estava pensando no amanhã.

Estava apenas ali.

Com ela.

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Algumas histórias não se resolvem em um encontro.
Elas se aprofundam.

👉 No próximo capítulo, a tensão cresce — e as escolhas se tornam inevitáveis.

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